Este é a primeira reflexão poética sobre a oficina de direção teatral Intérprete: Alquimista Suprema(o), conduzida por Eric Lenate na Oficina Cultural Oswald de Andrade (São Paulo/SP) entre julho e setembro de 2017.

Se a vida é um palco e somos todos elenco e protagonistas das próprias histórias, atrizes e atores têm a condição de serem a metáfora, o espelho do ser humano. Quando falamos “encontro”, mais que dois corpos num lugar, sabemos que pode significar “encontro de ideias”, “encontro de expectativas”. De encontro, ao encontro, desencontrados, Johncoltrane.

(Ponho um jazz para estimular minhas palavras ao encontro de você que, ao me ler agora, encontra o resultado-canal dos encontros da oficina.)

Um dos hashtags de todo o processo foi a reflexão do ser artista de teatro. O que é um(a) diretor(a)? O que é um(a) ator/atriz? Qual o encontro entre da vocação artística e a profissão artística? Qual o lugar comum entre o que entendemos de missão — o impulso de realização, a expressão — e a prática de ir de palco em palco seguindo sua vida?

Penso que se há espaço para essa reflexão, eis aqui o primeiro indício da condição do artista de teatro: me parece que “propósito” nunca esteve tão em voga quanto nesta década 2010 do terceiro milênio. Coachs pipocam aqui e ali, retiros sabáticos, pessoas de trinta ou menos viajando o mundo para encontrar a si, profissões sendo extintas e obrigando a reinvenção.

A questão da missão de vida que tem sido buscada em diversas carreiras também tem sido refletida nos artistas. Ou, pelo menos, é o que percebi naqueles trinta seres humanos que duas vezes por semana franziam o cenho olhando para dentro cada vez que relembrávamos: o que é um ator ou atriz? O que é o encontro? Qual sua missão? Qual seu propósito?

O próprio termo alquimia, que dá título à oficina, tem essa pano de fundo. Os alquimistas, primeiros cientistas da história, tinham como símbolo de sua missão transformar o chumbo em ouro; o peso em valor. A “transformação de si” (ou de algo) tem na Alquimia a figura de mãe, e nas diversas profissões e atividades decorrentes deste que foi o princípio da análise e transformação.

Qual é o peso da profissão do(a) ator/atriz? Qual os caminhos para sermos a versão áurea, trazendo valor para aqueles poucos, hoje poucos, que nos contemplam fora da zona de conforto de seus lares?

Para Eric Lenate, uma de suas questões talvez seja esta:

Será que o papel do(a) diretor(a) é conduzir a alquimia entre elementos da cena, sendo o principal deles o(a) ator/atriz?

Como levar o(a) ator/atriz, que é a primeira e última condição teatral, à sua melhor versão possível (áurea) em relação ao material que se pretende explorar no palco?

A resposta obviamente não foi dada, mas o propósito da oficina foi este: estimular a observação dos(as) diretores(as) para identificar em seu/sua ator/atriz os materiais que fazem deste encontro único per se, pois cada pessoa é um elemento, com composições diferentes e próprias, sendo necessário para cada pessoa uma arquitetação particular para chegar ao ouro.

E também de fazer surgir desse caldeirão de pensamentos, motivações, emoções e fisicalidades que acontece no tempo-espaço de uma série de ensaios — chamado “encontro” — fazer surgir o inesperado, o mistério.

É por isso que a hierarquia do(a) diretor(a) é de ordem logística, organizacional e sintática. Seu papel, portanto, é esse de criar um ambiente em que uma nova e única poética seja estruturada e erguida; que seja o estimulador para que seus elementos possam dar o salto quântico criativo. Este é o espaço da palavra-final do diretor(a). O teatro não é ponto-final, mas uma interrogação (às vezes exclamativa) que não se resolve.

Votamos portanto ao começo do texto, pois mais uma vez o artista da cena é metáfora da vida, uma vez que a vida não é o cartesianismo que muitos afirmam.

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