Se um dos pilares principais dos encontros na oficina foi a abertura à reflexão sobre o ofício e o olhar para dentro por meio de exercícios reveladores, o segundo pilar foi a exposição de procedimentos. Foi durante essa segunda “etapa” que os diretores(as) participantes expuseram formas de trabalho em forma pocket (sintetizada), ou experimentaram propostas que os desafiassem.

Além de ampliação de repertório, os procedimentos de trabalho nos levaram a outras questões pragmáticas. A principal delas: “por que este procedimento?”

Aliás, é uma questão que foi comum até mesmo no módulo II.

Talvez a pedagogia da direção teatral sofra uma inércia criativa, que tem como indício a reprodução de métodos “porque fulano faz assim” ou “porque fiz uma vez e gostei”. Da mesma forma que a silabação e o devaneio revelaram os objetivos práticos da aplicação, a médio e longo prazo debatemos que é recomendável que o diretor(a) compreenda os objetivos básicos de cada proposta de trabalho, em especial se souber os desafios que pretende lançar aos seus atores/atrizes. — Sempre lembrando que condução não é uma questão de hierarquia, mas de proposição e estruturação de artifícios de exploração de algum aspecto físico/sensível do corpo, da cena, do espaço, do material etc.

Um exemplo é o exercício da animalização: um ator/atriz caminhando como cachorro, gato, macaco etc. Para além de pesquisar figuras e inspirações para personagens (pode ser um dos objetivos), a animalização antes de tudo desperta a consciência articulatória do corpo. Como a estrutura óssea deve se modificar para dar ao meu caminhar uma qualidade “canina” ou “felina”?

Um procedimento é uma tentativa.

Tentativa de quê? Qual seu fio condutor? Qual sua estrutura mínima? Como permitir a “entrada” no procedimento? Nesse sentido, sempre me lembro da minha frase preferida do nonagenário e ativo Peter Brook: “É preciso criar um ambiente seguro para que os atores/atrizes possam arriscar a vida.”

Algumas das questões levantadas com os primeiros procedimentos mostrados foram:

→ Existem atores/atrizes que seguem regras; existem aqueles que quebram regras. Como o diretor(a) se prepara para criar ciladas, tirar o tapete de ambos os casos?

→ Como é que o diretor(a) prepara ou pensa o modo de condução? O durante interfere no caminho? Há abertura de mudança de rotas? O quanto essas mudanças fogem do objetivo, chegam a outro objetivo, ou revelam do próprio resultado?

→ Há casos em que há uma lacuna entre o que se pretende e o que se experimenta, e nem sempre isso é nítido, sobretudo se o ator/atriz tiver artifícios naturais à mão que lhe permitam dar aquele “golpe” perante pessoas que não conhecem seus truques.

→ Notei que o Eric Lenate buscou em sua atitude, e como exemplo de abordagem, não se deixa levar por julgamentos (embora nem sempre). Qualquer coisa pode ser interessante, desde que o propositor(a) crie consciência das possibilidades que se abrem a cada escolha.

→ Muitas vezes a gente prepara um terreno à espera de que algo aconteça. É normal que, pela ansiedade da produtividade — mostrar a que veio, evitar o silêncio e o constrangimento do “fracasso” — os envolvidos “criem” algo em vez de deixar que o algo seja criado.

→ Foi quando começamos a falar de física quântica: a magia está no fazer ou no salto quântico? E como é que acontece esse salto quântico?

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