Quantos artifícios cada um traz consigo para a cena? Quantas muletas ou recursos “garantidos”? Quais desses recursos realmente nos libertam?

São questões que foram levantadas ao longo dos procedimentos de exploração expressiva na oficina. Além do jogo da silabação, foi proposto um devaneio silábico em que o participante deveria seguir o fluxo da imaginação e passar pelas mais diversas paisagens emocionais possíveis. “Montanha russa emocional”, sem uso de qualquer palavra inteligível, de nosso vocabulário ou de qualquer língua existente.

Do meu ponto de vista o exercício revela-se mais que um jogo expressivo. Para um(a) diretor(a), é uma forma de identificar as facilidade e dificuldades das pessoas de seu elenco; diante da “amputação comunicativa”, cada uma acessa aquilo que, inicialmente, lhe é mais conveniente. Muitas cias. têm seu próprio método para identificar essas ancoragens/saídas.

Carmelo Bene, por exemplo, um dos atores de Pasolini, tinha sua própria pesquisa expressiva. Sua tese era a de que é preciso amputar uma obra para ver o que ela nos revelava. Em seu Ricardo III (filme), eliminou todos os personagens masculinos (exceto o protagonista) para mostrar a relação do déspota em relação às mulheres que o cercam: mãe, rainha, esposa etc.

A amputação comunicativa do exercício da silabação em exposição individual nos oferece essa via: diante do desafio (exercício), a pessoa em ação ativa seus recursos mais imediatos (reconhecimento de facilidades), até que o tédio toma conta e cabe a ela descobrir campos inexplorados (desafios).

A silabação revela quando o racional bloqueia a expressão; quando a expressão está mais na cabeça, ou nas mãos; quando os braços são dependentes; quando os pés se rebelam participativos; e até mesmo quando a pessoa não se permite mergulhar num estado que sua carcaça física apenas aponta.

Revela também os lugares mais acessados por nossa psiquê: o campo cômico, clownesco; o dramático latino; o filosófico russo; o melancólico, o colérico, o fleumático, o sanguíneo. Para um diretor(a) que pretende saber como levar seu ator/atriz para tal lugar, exercícios de restrição expressiva mostram ser úteis para saber de que ponto de partida ele/ela está partindo.

A segunda parte do exercício da silabação em devaneio emocional deu-se pela interação entre dois ou mais atores/atrizes. A partir de um certo momento, era dado o comando para que interagissem. No entanto, a regra era que sempre mantivessem a silabação como base e apoio expressivo.

Novamente um exercício revelou duas faces de uma moeda. Por um lado, a abertura criativa das pessoas e sua facilidade de improviso numa situação não cotidiana: situaçõess cômicas, sentimentais, simpáticas, raramente apáticas aconteceram.

Por outro, uma questão similar à levantada na parte anterior: a condescedência do artista. Talvez pela ansiedade (ter que mostra algo), talvez pela insegurança (ter que mostrar a que veio), algumas das interações foram “forçadas” e chegaram a locais de “desistência”. “OK, tentei criar uma conexão, falhei, mas achei um ponto aqui que as pessoas que assistem reagiram e riram, então ficarei aqui mesmo.”

É curioso que o exercício do devaneio emocional pela silabação a dois (ou três) explora aquilo que aqui vou chamar de “laringoativação”. O chakra laríngeo refere-se à nossa expressão, que, neste contexto, precisa acontecer a despeito de suas condições artificiais.

O chakra laríngeo envolve dois aspectos astrais que vão além da fala: são a nossa autocrítica (saber o que cortar para continuar evoluindo, o desapego às nossas fixações) e nossa sensibilidade emocional (nosso sensor para sentimentos que não são apenas nossos, e também o sensor para deixar-se levar pela corrente).

Este exercício fala sobre isso: o que é realmente necessário em nossa expressão para estabelecer um código emocional? Quanto somos capazes de viajar entre locais emocionais diversos? Quando estamos em dupla, quanto que nós nos deixamos levar pela ansiedade, às vezes sem olhar para o que realmente aconteceu? O quanto podemos deixar que algo aconteça sem impor nossa vontade?

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