Notas breves sobre ocorrências comuns entre os grupos e as reflexões que tirei dessa percepção. Não irei apontar quem chegou mais longe, mais fundo ou mais alto, e sim o padrão de “performance”, tirando desta síntese uma reflexão final.

Desafio e ponto de partida

A primeira percepção é a de que foram três os grupos de núcleos, segundo a forma de escolha de material e, por consequência, o procedimento ao longo dos encontros.

O primeiro é o dos que levaram a sério todas as regras do jogo: ir buscar referencial humano fora de si e não familiar, e desafiar-se em encontrar o caminho comum/desdobrável entre referencial, performer e diretor(a). Para estes, o desafio foi a “tradução expressiva” do material e suas incertezas poéticas.

O segundo é a dos que preferiram concentrar os esforços nos ensaios, não na criação a partir de uma pessoa referencial. Basearam em materiais frios, ou seja, escritos sem o contato entre artista e voz. Temas que partiam mais de atrizes e atores em suas questões do que essas mesmas questões partindo de um olhar outro, nem familiar nem conformado já em discurso. Para estes, o desafio foi mais formal e de constituição de cena.

O terceiro — transgrupo, pois encontrado em ambos os casos acima — é dos que encararam o experimento como experimento. Verdadeiramente. A estes o desafio foi questionar as próprias certezas de procedimento, o que causou, por um lado, mais frustrações e insegurança; por outro, e visivelmente, mais aprendizado. Bastava perceber a empatia e reconhecimento do grupo aos que arriscaram a despeito do resultado final.

Portanto fica uma primeira conclusão para próximas oficinas: estimular logo de cara rodas de reflexões para o questionamento de certezas, e assim incentivar o risco nos participantes, não sem antes promover um ambiente “confortável” e familiar entre os artistas, para que se sintam, como diria Peter Brook, seguros para arriscar a vida.

E, em segundo lugar, insistir, quando possível, numa pesquisa que estimule o artista a enxergar a perspectiva de um material não familiar: colocar-se em cheque.

Teatro Pocket

O que não quer dizer que os experimentos “orientados para resultado” (cenas completas, guardadas as devidas proporções) não tenham também trazido grande valia e potencial.

Algumas cenas, por serem pequenas e de simples execução, mas moventes em questões sociais (caso da Autópsia de um Estupro, da Ascenção de Tânia e do Humano em Abandono) têm em si o potencial de formarem projetos de “formatos pocket” que poderiam facilmente serem levadas a mais locais que os centrais paulistanos, como CEUS e centros culturais periféricos.

As questões sociais em voga não precisam de complexa aparatagem técnica teatral: 15 minutos de cena e um debate aberto organizado em seguida à apresentação podem, penso eu, gerar ainda mais impacto em diferentes públicos de escasso acesso à cultura, do que inflar o círculo social artístico, já sensibilizado a estas causas. Sair da bolha para não alimentar a bolha.

Nestes casos estamos falando de um teatro inclusivo, não necessariamente de exploração procedimental, e que surgiu na oficina também.

A arte reflete o mundo? A questão do feminismo na oficina

Os artistas refletem as insurgências sociais de seu tempo, ou as antecipam. Foi o que eu ouvi em diferentes momentos de meu caminho, desde o estudo básico de teatro, literatura e artes em geral.

Outra teoria complementa: as ideias acontecem ao mesmo tempo em locais distintos, e o ser humano tem a capacidade de captar pela intuição a demanda desse tema na sociedade.

Os artistas, teórica e idealmente, possuem essa percepção intuitiva aguçada; mulheres ainda mais; e os artistas de teatro ainda mais, pois o fazer teatral é também um ensaio para o ser humano, já que a vida é um palco.

Tendo isso como partida, é de chamar a atenção que as temáticas elegidas por ¼ dos núcleos (diretamente) tenha sido a questão do abuso sexual, mental, emocional ou social sofrida pelas mulheres.

Chama atenção porque o que aconteceu na Oficina premeditou a série de escândalos que poucos dias depois explodiram pelo mundo todo — estupros, abuso de poder na indústria cinematográfica e política, #MeToo.

Aquelas artistas, em proveito de seu status de celebridade, estão injetando ânimo e consciência para que outras denúncias, debates e sororidades alcancem mais esferas, das familiares às corporativas, das escolas à praça pública.

Fruto não só de um workshop de artistas que pensaram juntos as vontades e urgências de cada um, mas da coordenação dessas vontades em procedimentos criativos que promovessem o encontro no mínimo tridimensional das questões éticas e estéticas levantadas.

Transformações da Oficina

Era de uma sensação geral que a pegada da Oficina (módulo I e II em sequência) foi transformadora. São poucas as oportunidades de se envolver profundamente com a ética, com o ethos do fazer teatral de uma forma livre, experimental, sem o peso da avaliação ou julgamento.

O “sistema alquímico” propôs mexer na merda, entender o que precisa ingerir, questiona bases de crenças, os clichês irrefletidos da criação e os pensamentos-fantasmas que rondam o coração artista, para revitalizar o por quê de se entrar em cena, ou ainda antes disso: o por quê de se fazer teatro.