Após a pausa para nosso intervalo, nossa palestra-fóton, nossa observação de processo, continuamos na investigação dos procedimentos que diretores(as) traziam para atores/atrizes.

Se um dos grandes temas de questionamento dos debates era “Pra quê tal procedimento?”, começamos a perceber a necessidade de discutir questões como a indução, o vocabulário e a precisão de indicações.

Exemplos de comandos que não ajudam:

“Pense que você está em…”
“Imagine que você…”
“Permita-se fazer…”
“Tente fazer isso/aquilo…”

Os comandos pensar, imaginar, permitir-se, tentar, criam um tempo de ruído no comando. A cada vez que se pede para pensar, imaginar, permitir, tentar, cria-se uma etapa desnecessária de codificação. Por dois motivos:

  • o/a ator/atriz sempre estará pensando ou imaginando ou permitindo-se ou tentando;
  • o comando apela para o intelecto, o racional do(a) ator/atriz, que reagirá em dois tempos/verbos, em vez de um.

Verbos têm poder sobre nossos estímulos, e no “tentar fazer” o cérebro dá mais ênfase ao tentar, não ao fazer. Neurolinguística.

A melhor saída é eliminar o “pense que”, que não faz falta nenhuma. Veja a diferença entre “Pense que agora você está flutuando.” e “Agora você está flutuando.” Entre “Imagine que sua casa explodiu.” e “Sua casa explodiu.”

“Quais as possibilidades que você tem de andar…?”,

Pelo mesmo motivo acima, toda vez que se faz um questionamento de escolha para o/a ator/atriz, falamos com seu intelecto ponderador. Melhor seria se apontar as opções, mas não pedir comparações ou pedir que o racional os eleja. “Andar de costas, de frente, de lado. Explorem.”

“Será que é assim que o personagem reagiria…?”

Há casos em que precisamos fazer indicações no campo das escolhas. O “será” e seus derivados suspendem a questão. Uma sugestão seria, por exemplo: “O personagem reage de um jeito. [após algum tempo:] Agora o personagem reage de outro jeito. Explore diferenças de reação.” Coloque-se no lugar do receptor para perceber a diferença disso para o “será que o personagem reagiria assim?”

“Eu quero que você agora faça isso.”

É óbvio que o diretor(a) quer alguma coisa! Qual o papel de “eu quero que você” num procedimento em que o ator/atriz já está entregue aos comandos do diretor(a)? Nenhum, certo? Simplesmente elimine o querer. “Faça isso.”

“Faça isso… [5 segundos depois:] Agora imagine que… [10 segundos depois:] Agora você vai… [5 segundos depois… etc.]”

É preciso entender que cada ator/atriz tem um tempo, e cada comando deve ter um respiro para que seja experimentado no ato e no corpo. Presenciamos momentos em que não era dado nem dez segundos de intervalo entre um comando e outro, o que pode ficar confuso ou, pior, ligar o ator/atriz ao seu racional crítico.

Eu particularmente já estive em processos que por causa de afobação do diretor(a) (querer ter um resultado, dizer que o ensaio foi produtivo, etc) pegava a primeira coisa que ele/ela gostava do que via, e dali já partia para um desdobramento, sem deixar tempo para que aquilo se desdobrasse de fato na minha experiência. Diretores(as), hold your horses!

[O diretor(a) vai e toca no corpo do ator/atriz pedindo pra fazer algo.]

O contato do diretor(a) algumas vezes é necessário. Mas quando podemos exercer a autocrítica para saber quando é necessário? Não será um desafio do diretor(a) poder “manipular” os artistas de seu elenco à distância, ou exercitar-se para aprimorar seu vocabulário de comando?

“Seu braço está pesado…” “Você sente calor…”

Este é bem comum. Peso, temperatura, velocidade, é tudo relativo. É preciso dar apoios concretos ou disparadores imaginários sensíveis para estimular o artista em cena. “Seu braço agora é feito de chumbo.” “Suas pernas não sentem a gravidade.” “Um calor de 40° C sem brisa.” “Areia quente queimando a sola dos pés.” “Chuveiro gelado no inverno gaúcho.”

“Respira…” “Relaxa…”

Essa é clássica, e eu, que tenho naturalmente uma musculatura mais tensa (diagnóstico de fisioterapeuta), já ouvi muitas vezes: “Relaxa…”

O relaxamento é um objetivo, e um objetivo não funciona quando é dado como comando. É o mesmo que chegar e pedir ao ator/atriz: “Chore!”. A não ser, claro, que haja uma área específica: “relaxe os ombros; o maxilar.”

respirar é uma forma de alcançar esse objetivo genérico. Mas respirar como? Pela boca? Pelo nariz? Ofegante? Em quatro tempos? Inspira pelo nariz, solta pela boca? Enchendo o peito, enchendo a barriga, forçando o diafragma, abrindo as costelas? Há diferenças de mecânica, e também de resultado.

É claro que quando se comanda “respira…” provavelmente o ator/atriz em questão mostrou tensionamento, travou o fluxo respiratório, saiu do momento presente, ou seja, estados físicos e psíquicos impeditivos para aquele fluxo criativo específico do ensaio. O comando “respira” é um lembrete que quer dizer “Perceba sua respiração e traga-a para o fluxo tal!…”. Não seria melhor então pedir justamente isso? “Perceba a respiração, respire pela boca…”

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