Se você não é do ramo teatral e chegou até aqui, imagino que tenha se deparado com alguns termos próprios da profissão com possíveis, mas não exatas, analogias que existem nas linguagens de outros ramos. Eu compartilho da sua impressão!

Quando eu me distancio um tiquinho que seja desse campo artístico-teatral percebo a quantidade de conceitos abstratos que utilizamos para sintetizar ideias que, a essa altura do campeonato, talvez nem estejam tão claras entre nós mesmos, artistas de teatro.

Corporificação. Presentificação. Estado de presença. Disparador cênico. Gestus. Naturalismo. Realismo. Cena dramática. Estar em relação. Improvisação. Encontro. Sentir. O impulso da relação cênica. Por aí vai, por aí fomos, por aí sempre vamos. E o disco gira repetido, quando nem o básico parece que falamos em comum: pergunte a diferença entre sensação, emoção, sentimento e pressentimento e cada um vai dar uma resposta diferente. O que é “sentir” em cena?

E se a resposta sempre gera dúvidas, será que não é o caso de simplificarmos nosso vocabulário? Deixar “a academia” para fora do espaço de trabalho?

Um dos exercícios inciais propostos na oficina foi a silabação, ou o conhecido gramelô: falar sílabas sem significado, sem aproximação com nenhuma língua, e deixar o/a ator/atriz se virar com a expressividade do corpo, incluindo aí os recursos de sua voz. Diante do ator/atriz ficaria um(a) companheiro(a) que reagiria ao esforço conforme percebesse um código comum.

Vou tentar simplificar, assumindo que não é só artista que lê este espaço:

  1. a proposta acima tem como objetivo:

  2. que o cobaia ininteligível (a pessoa que não pode usar uma linguagem

  3. comum) encontre pela expressividade de seu corpo e sua voz

  4. alternativas para criar um código comum

  5. com a pessoa que está contracenando

  6. e assim gerar o que chamamos de “encontro”.

É uma frase só, mas dissecada para ficar mais claro.

Em muitos momentos dos exercícios praticados isso aconteceu, mas atentarei a outra questão: o exercício também se mostrou metáfora da própria cena teatral.

Motivo: minha impressão é que quanto maior a abstração quando se fala de teatro, mais estamos “blablando” em busca de um aceno, uma confirmação de que estamos no jogo, e ganhando.

Minhas questões com a pesquisa acadêmica ou mesmo a crítica no teatro vai por aí. Como nós, artistas, temos noção de nossa condição minoritária, e temos compaixão do esforço do outro porque sabemos o que é estar lá, então agimos com complacência, cumpadecimento, companheirismo, compadressência. Somos condescendentes em relação à abstração do colega.

Mas será que, se por um lado a linguagem abstrata nos permite falar de… abstrações…, por outro não estamos nos distanciando da concretude material da cena? A abstração tem estimulado o fazer tanto quanto tem estimulado o intelecto? Aliás, sempre me pergunto se não será esta uma das questões da arte contemporânea. — E quando público? Será que as palmas automáticas corroboram para essa facilitação?

E, ao facilitarmos para o outro artista, não estaremos sendo condescendentes para com sua missão, que poderia ser, segundo o que pesquisamos na oficina, a de estruturar uma poética a partir do zero, e não de códigos pressupostos? — O ator/atriz que “ajuda” o colega em cena durante um exercício, por complacência ou compaixão ou simpatia, não estará colocando rodinhas em sua bicicleta? Será que essa suavidade de exigência não é, no fundo, um medo de olhar para onde somos rígidos? Quão rígidos/suaves devemos ser entre nós nos encontros ao qual nos propomos? Os encontros devem ser sempre gostosos?

Oh shit.

Sem dúvida questões que não buscam respostas aqui. Mas foi o que chamamos de “busca do artífice zero” na oficina.

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