No texto 7 falamos das questões do Ego na criação. Não se nega a importância das vontades do(a) artista como motivadores da ação, no entanto o Ego é uma armadilha que se retroalimenta e, com o tempo, quando cego, tira a potência do indivíduo.

Um dos termos que nos remete a isso, no universo da direção teatral, é a assinatura. “Tal trabalho tem a assinatura do diretor(a)…” — Quando a assinatura da pessoa acaba mostrando uma reprodução de suas descobertas passadas, não será esse um sinal de esgotamento criativo por causa de um ego maior que a obra? Esqueçamos o quanto tal artista é requisitado(a), por um momento. Quando é que a assinatura é uma questão de ego do(a) diretor(a) que impõe sua vontade a despeito da obra?

Afinal de contas, quando falamos de encontro, nos referimos a todas as instâncias: o encontro do artista com outra artista, do artista com a plateia, do artista com a obra, do artista com o seu presente. Portanto, e idealmente, o trabalho teatral (e não só ele) deveria ser resultado do desdobramento dos pontos de conflito entre todos esses encontros. Em resumo, a dialética entre a vontade do um com a vontade do dois.

Então, voltamos: não será que, ao falarmos bem de alguma assinatura, não estamos valorizando o ego do artista acima de sua obra?

Na Inglaterra é comum dizer que existe um jeito britânico de dirigir teatro. — Ah, esses ingleses e suas questões de “autoria” e individualismo acima de todas as coisas!… Nunca superarão esse medo de Shakespeare não ser quem eles pensam que foi. Enfim. Lá na Inglaterra… — a “assinatura britânica” é tão identificável que, quando surge um(a) diretor(a) que foge dessa linha — caso de Simon McBurney, Declan Donnellan, Kate Mitchel —, são classificados como “diretores britânicos não-britânicos”.

Eu tive um professor que detestava o arquiteto Oscar Niemeyer. Embora reconhecesse sua ousadia, não tolerava seu ego, porque, segundo ele, “ao olhar uma capela eu deveria contemplar a Deus, não a Niemeyer”. Indo nessa linha, ao olhar um Gravações de Krapp eu deveria contemplar a Beckett, não à estética de Bob Wilson. Contemplar a Shakespeare, não ao Gabriel Vilella. E assim por diante.

Concordo em partes. Não me considero extremo. Afinal, podemos “contemplar Beckett sob o olhar de…”, “contemplar A Tempestade sob o olhar de…”. Por exemplo, o filme de Michael Fassbender, Macbeth, é lindíssimo. No entanto, o diretor criou cenas fora da obra para poder justificar sua interpretação e justificar as motivações do Macbeth-que-o-Fassbender-vê. Aquele não é Macbeth, é um pedacico dele colado à invenção do ator-diretor.

Outra questão que isso levanta é: se a estética é o meio para alcançar o sublime, pois cada poesia necessita de uma forma única, quão reduzidos estamos sendo se associarmos assinatura com a estética do diretor(a)?

E quando artista não percebe a sua recusa, ou seja, não percebe que foge da fricção entre o material e seu ego, e minimiza o encontro apenas ao ponto de vista que lhe convém? E por material estou falando tanto de elenco quanto de dramaturgia, edifício teatral etc. Onde é que fica o lugar de utilizar o melhor dos artistas e estimular o devir? É realmente necessário imprimir uma assinatura?

Temos que ter em vista que a questão da assinatura é um conceito mercadológico, vindo das artes plásticas. “Este aqui é um Picasso, aquele ali é um Mondrian.” — Mas quem estuda a vida de Picasso sabe que ele passou por muitas fases, e que o que identificamos da Guernica é o seu ápice. Por quantos encontros ele não passou?

O conceito de assinatura nas artes também é usado para validar uma obra. “É uma merda, mas é do Fulano.” “Vai ver, porque é Ciclano.” E a validação também é um mecanismo mercadológico. Como exemplo supremo temos o Romero Britto nas artes plásticas, ou uma Royal Shakespeare no teatro.

Isso tudo foi desdobramento de uma provocação levantada num dos encontros, em que o Eric Lenate sugeriu pensarmos não em termos de assinatura, mas de “digital”. Afinal, cada indivíduo tem sua digital, única no mundo, portanto a obra pode mostrar as digitais sutis e que não aparecem à frente da obra.

Já eu, prefiro dizer apenas o “olhar” do artista, pois, como temos dito até agora nessa série, a observação é um debruçamento sobre o encontro entre olhares de artistas sobre si mesmos e sobre a obra (e o que ela aponta).

E pra você?

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