Há dias em que os artistas do encontro parecem não ouvir, relativizar ou dimensionar o comentário alheio ou a sua própria fala. Há dias em que a discussão parece patinar em cima de conceitos, abstrações, concepções ou… gostos pessoais disfarçados de opinião crítica.

Fazendo uma brincadeira com Astrologia, estes seriam “encontros de Mercúrio retrógrado”, o planeta da comunicação indo no sentido contrário, mais confundindo que esclarecendo, quando muito se fala e pouco se entende.

Isso aconteceu algumas vezes durante a oficina e costuma acontecer na maioria dos grupos, e não só de teatro. Existe um termo na sociologia chamado agenda setting que se baseia, entre outros, sobre o efeito “espiral do silêncio” em grupos grandes.

O espiral do silêncio no debate teatral

O espiral do silêncio acontece quando numa ágora (qualquer meio social) a voz de poucos que têm a iniciativa de manifestar (ou de manifestar mais alto) é interpretada pela percepção coletiva como interesse geral, porque uma boa parte do grupo não se manifesta contra e outra boa parte ainda não tem certeza sobre a questão debatida em si. Se não há um contraponto ou imediato, a tendência é que o “silêncio da opinião geral” seja entendido como “apoio à opinião parcial” (o famoso “quem cala consente”), criando assim uma pressão sobre aqueles que possam querer se manifestar contra: diante da dúvida, poucos querem importunar a “opinião da maioria” (o que é uma falsa impressão) com a sua divergência (que pode ser a voz da maioria real). É assim que a mídia constroi sua pauta.

Isso acontece também nos encontros e ensaios teatrais. Basta perceber nas rodas que você vai por aí. O quanto de tempo se despende para debater temas levantados por uma minoria, deixando o interesse geral mais abarrotado ao final desses encontros, rodas de conversa?

E isso aconteceu em alguns dias na Oficina. É um ponto a perceber e melhorar: como encontrar o balanço entre a abertura a qualquer questão, e o balanço de tempo para debatê-la em detrimento de outros temas ou perspectivas?

Fazer x Falar: um balanço

Atores/atrizes naturalmente preferem fazer do que falar. Mas numa roda sempre haverá aquele quinto de pessoas sempre participativas, opinativas, “democráticas” (friso as aspas): para tudo há uma questão, para tudo há uma observação inteligente; e o encontro de muitos passa a girar em torno das questões de poucos. Já fui um destes, já fui de turmas debatedoras; falo de experiência própria.

Existem aqueles que fazem excessiva autocrítica e raramente se manifestam, outros fazem-na de menos e se manifestam sempre. De um lado, desconfiança e diminuição de seus pensamentos; de outro, entusiasmo e impositivo, quando não autorreferente ou premeditadamente convicto.

Portanto, especifico com as seguintes questões:

Que saída o condutor de um grupo pode dar quando parece que muitas pessoas reivindicam, querem ou tentam dar a última palavra final sobre algo abstrato, subjetivo ou não-esclarecido?

Em tudo se precisa mostrar opinião?

Todo debate é semente? Precisa falar sempre?

O comentário realmente acrescenta ou eleva o debate?

Para toda observação é necessário uma lente de aumento?

Como tudo, deve haver espaço para as diversas formas de criação: a articulação mental é apenas uma delas; a criação, a concretização e o trabalho emocional são outros que precisam ser considerados na balança. A discussão e o debate são bem vindos, principalmente quando, como tudo, vem na medida. “Sair criando, sem direção” pode ser tão frustrante a longo prazo quanto “sair direcionando, sem criação”.

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